Nestes dias de
intenso frio, em Roma, uma vez cancelados alguns compromissos fora do meu
escritorio (que permanece, fortunadamente, no primeiro andar de minha casa),
dediquei-me à leitura. Comecei por um delicioso pequeno livro, em italiano, da
colega Paola Jacobbi, a qual, escrevendo pra VanityFair daqui, tem feito
sucesso por onde anda: “Sotto i tre carati non è vero amore”, ou seja, expressão
italiana que se usa para avaliar o valor de um relacionamento de acordo com a joia
que nos presenteia o ser amado. Em Português: Abaixo de três quilates não é
amor verdadeiro!
Pensei que se
tratasse somente de uma leitura prazeirosa sobre encantadoras futilidades, esse
livro da Paola: quem não aprecia o bom uso de anéis, colares, cintos, broches e
tiaras? Não somente isso: eram verdadeiras lições de vida com as histórias de
tantos personagens ilustres em torno às joias! Nooossa! Como são diferentes as
reações de cada ser humano!
“Conta que o Duque de Westminster (Hugh
Richard Arthur Grosvenor) cortejava Coco Chanel, como fazia com todas as suas amantes: safiras,
diamantes, esmeralda. Mas ela não apreciava o gesto, sentia-se comprada. Então
ele, riquíssimo e extravagante, articulou a mania de esconder, em lugares mais
improváveis, em suas barcas ou em seus castelos, anéis com pedras preciosas,
desafiando senhoras e senhoritas a os encontrarem...”.
“Um dia, durante um cruzeiro, ele a
trai com outra hóspede (evidentemente muito sensível à caça ao tesouro!).
Chanel, furiosa, briga com ele. Este, pra se fazer perdoar, dá-lhe uma
esmeralda valiosíssima. Coco a extrai do estojo, olha-o intensamente nos olhos
e deixa cair o presente reparador nas àguas turvas do porto de Mônaco.”
Você, que me lê, pensará
que ela foi idiota em não aceitar o mimo. Pois eu, como Paola, pensamos de modo
semelhante: ela era independente e orgulhosa. E, adiciono eu: deve ter saído
dali com a “alma lavada”!
Enfim, como ia
falando, foram três dias passados entre lareiras e computers! Com alguns acenos aos jornais digitais e à tv (essa,
mais raramente) e o livro à cabeceira. Num contexto de preocupações bàsicas do
tipo ir ao supermercado, as prateleiras nuas de alimentos já em falta, estradas
perigosas pelo tempo adverso... Tudo somado ao negativismo italiano que já
assistiu em pouco tempo aos desmandos do Berlusconi, a covardia do Comte.
Schettino, ao Governo Monti com suas tantas sérias mudanças... Mas que tipo de
futuro nos espera, nesta Europa?
Coletivamente, é
facil que a gente se torne pessimista: “Pensa, Graça, ao futuro da nação
(Itália ou mesmo Brasil, onde habito quase quatro meses ao ano), pensa na
capacidade dos governantes de melhorar a instrução ou mesmo reduzir a
criminalidade, pensa...”
Pessoalmente, usando
toda a minha lógica, restrinjo tudo aquilo que é macro e entro no meu universo.
Cuido de mim: mantenho o peso e certa fisicidade, trabalho algumas horas ao
dia, economizo sempre que posso, divirto-me, viajo tanto, compro o que
necessito (sem arroubos, nem mesquinharias), estudo e me atualizo sempre.
Ademais, sou responsável, amante e generosa, vivo em sintonia alegre com os
meus e respeito o próximo, sem grandes preconceitos. Fui (e sou) pai e mãe.
Enfrentei dois divórcios e posso afirmar que estar na quarta relação
sentimental séria e duradoura é o triunfo da esperança sobre a experiência!
Enfim, estou contente e satisfeita com o que sou e com o que tenho, sem, hoje,
sentir a necessidade de confrontar-me ou mesmo comparar-me com quem quer que
seja.
Muitas vezes,
especialmente no passado, a vida se apresentou em mim, na sua forma mais dramática,
como se eu vivesse em delírio... Forte e realista, hoje, finalmente, respondo
às suas solicitações, com o máximo dos meus recursos, com a consciência de que
posso encontrar respostas para perguntas que somente eu poderia responder,
sendo eu mesma.
Com Graça, sigo o
meu curso.
NR: O episódio
sobre a vida de Coco Chanel foi extraído e traduzido do livro:
JACOBBI, Paola. Sotto i tre
carati non è vero amore. Marco Vigevani Agenzia Letteraria, Sperling&Kupfer
Editores, Milano, 2012.
Nenhum comentário:
Postar um comentário