Poucas pessoas sabem, mas o início de
fevereiro nos privou da graça e ironia da poetisa Wislawa Szymborska, polonesa, que nos abria as portas para as
primeiras e mais simples coisas da vida... Vocês imaginam uma poesia sobre um Curriculum
Vitae?
Prescindindo
do quanto se viveu,
E
serve concisão e seleção dos fatos.
Graça Montenegro.doc
Ei-la (na minha tradução do italiano
para o português):
ESCREVER UM CURRICULUM
O
que é necessário?
É
necessário escrever uma pergunta
e
à pergunta, anexar o curriculum.
um
curriculum deve ser breve.
Mudar
paisagens, em endereços.
E
recordações incertas, em datas fixas.
Entre
todos os amores, somente aquele conjugal.
E
das crianças, somente aquelas nascidas.
Conta
mais quem te conhece, de quem conheces tu.
As
viagens? Somente se ao exterior.
O
participar a alguma coisa,
mas
sem explicar o porquê.
Honorificências
sem motivação.
Escreve,
como se não estivesses falando
nunca
contigo mesmo
e
te evitasses.
Passa
por cima, cães, gatos e pássaros,
bugigangas
do passado, amigos e sonhos.
Melhor
o preço, que o valor.
E,
o título, que o conteúdo.
Melhor
o número do sapato,
que
não, onde vai, aquele que imagina quem és.
Acrescenta
uma foto com as orelhas descobertas.
É
a sua forma que conta,
não
aquilo que se intui.
O
que é que se intui?
O
rumor das máquinas trituradoras de papel.
Ela me recorda tanto o nosso Mário
Quintana, especialmente naquela atenção dada aos animais... Um sentimento de admiração, quase de inveja,
pelas criaturas que somente vivem o momento. Não como nós, seres
impossibilitados, a mergulhar profundamente no instante, apoiados como somos
nas recordações do passado e encastrados ante a chegada do futuro.
Ganhou, em 1996, o Nobel de
Literatura, a “Senhora de Cracóvia”, como era chamada. Dizia que, “quando mais seguimos adiante, na
vida, mais crescem as perguntas e se ofuscam as respostas”, vendo, ano após
ano, multiplicadas as edições dos seus versos.
Em prosa, os cinco volumes de
“Leituras Facultativas”, apreciação sui generis sobre livros de temática
diversa (jardinagem, economia doméstica, memorialística, correspondência literária),
causaram idêntica admiração provocada pela poesia.
Graça e ironia não lhe faltaram ao
definir-se em seu epitáfio:
“Aqui jaz, como uma vírgula
antiquada, a autora de alguma poesia. A terra lhe dignou um eterno repouso, se
bem que a defunta estivesse bem distante dos grupos literários. E mesmo sobre o
túmulo, melhor não há que estas poucas rimas taciturnas e contidas: Extrai da
tua bolsa, o teu personal, passante, e sobre a sorte de Szymborska, medita um
instante.”
Viram só? Como não apreciar-lhe o ceticismo,
a sobriedade e a precisão incidindo na linguagem coloquial, mas sempre capaz de
abolir, constantemente, o lugar-comum!
Ah, belo escrever com este gosto
requintado voltado para o jogo linguístico, com predisposição à ironia, atenção
ao ritmo e ao uso (não exagerado) de metàforas! Depois de ler “A Alegria de
Escrever”, fico aqui me perguntando sobre uma congênita vocação literária minha:
não será melhor dedicar-me à “Alegria de Ler”?
Mas igualmente me sinto plena e
contente. E, por tal razão, risonha, egoisticamente feliz mesmo, pelas pessoas
que estão no meu percurso “històrico” e também por aquelas que “entraram pela
porta e saíram pela janela” da minha vida. Principalmente, homens. Agradecer à gente que,
não fazendo a mesma estrada, me faz observar que as viagens são sempre bonitas
e que o espaço deixado, me acumula luzes e energia! E como afirma Wislawa,
falando sobre dever muito a quem não se ama: “devo a eles, se vivo em três dimensões,
num espaço não lírico e não retórico, com um horizonte verdadeiro, porque é móvel”!
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