quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

“DEVO MUITO A QUEM NÃO AMO”

Poucas pessoas sabem, mas o início de fevereiro nos privou da graça e ironia da poetisa Wislawa Szymborska, polonesa, que nos abria as portas para as primeiras e mais simples coisas da vida... Vocês imaginam uma poesia sobre um Curriculum Vitae?

Ei-la (na minha tradução do italiano para o português):

ESCREVER UM CURRICULUM

O que é necessário?

É necessário escrever uma pergunta

e à pergunta, anexar o curriculum.

 Prescindindo do quanto se viveu,

um curriculum deve ser breve.

 E serve concisão e seleção dos fatos.

Mudar paisagens, em endereços.

E recordações incertas, em datas fixas.

Entre todos os amores, somente aquele conjugal.

E das crianças, somente aquelas nascidas.

Conta mais quem te conhece, de quem conheces tu.

As viagens? Somente se ao exterior.

O participar a alguma coisa,

mas sem explicar o porquê.

Honorificências sem motivação.

Escreve, como se não estivesses falando

nunca contigo mesmo

e te evitasses.

Passa por cima, cães, gatos e pássaros,

bugigangas do passado, amigos e sonhos.

Melhor o preço, que o valor.

E, o título, que o conteúdo.

Melhor o número do sapato,

que não, onde vai, aquele que imagina quem és.

Acrescenta uma foto com as orelhas descobertas.

É a sua forma que conta,

não aquilo que se intui.

O que é que se intui?

O rumor das máquinas trituradoras de papel.
 

Ela me recorda tanto o nosso Mário Quintana, especialmente naquela atenção dada aos animais...  Um sentimento de admiração, quase de inveja, pelas criaturas que somente vivem o momento. Não como nós, seres impossibilitados, a mergulhar profundamente no instante, apoiados como somos nas recordações do passado e encastrados ante a chegada do futuro.

Ganhou, em 1996, o Nobel de Literatura, a “Senhora de Cracóvia”, como era chamada.  Dizia que, “quando mais seguimos adiante, na vida, mais crescem as perguntas e se ofuscam as respostas”, vendo, ano após ano, multiplicadas as edições dos seus versos.

Em prosa, os cinco volumes de “Leituras Facultativas”, apreciação sui generis sobre livros de temática diversa (jardinagem, economia doméstica, memorialística, correspondência literária), causaram idêntica admiração provocada pela poesia.

Graça e ironia não lhe faltaram ao definir-se em seu epitáfio:

“Aqui jaz, como uma vírgula antiquada, a autora de alguma poesia. A terra lhe dignou um eterno repouso, se bem que a defunta estivesse bem distante dos grupos literários. E mesmo sobre o túmulo, melhor não há que estas poucas rimas taciturnas e contidas: Extrai da tua bolsa, o teu personal, passante, e sobre a sorte de Szymborska, medita um instante.”

Viram só? Como não apreciar-lhe o ceticismo, a sobriedade e a precisão incidindo na linguagem coloquial, mas sempre capaz de abolir, constantemente, o lugar-comum!

Ah, belo escrever com este gosto requintado voltado para o jogo linguístico, com predisposição à ironia, atenção ao ritmo e ao uso (não exagerado) de metàforas! Depois de ler “A Alegria de Escrever”, fico aqui me perguntando sobre uma congênita vocação literária minha: não será melhor dedicar-me à “Alegria de Ler”?

Mas igualmente me sinto plena e contente. E, por tal razão, risonha, egoisticamente feliz mesmo, pelas pessoas que estão no meu percurso “històrico” e também por aquelas que “entraram pela porta e saíram pela janela” da minha vida.  Principalmente, homens. Agradecer à gente que, não fazendo a mesma estrada, me faz observar que as viagens são sempre bonitas e que o espaço deixado, me acumula luzes e energia! E como afirma Wislawa, falando sobre dever muito a quem não se ama: “devo a eles, se vivo em três dimensões, num espaço não lírico e não retórico, com um horizonte verdadeiro, porque é móvel”!

 Graça Montenegro.doc

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