quarta-feira, 16 de maio de 2012

Entre o futuro dos leitores e os leitores do Futuro

A Editoria, no momento atual, mostra-nos dois fenômenos. O primeiro envolve todos os setores da economia, pois já estamos vivendo em recessão (talvez a maior dos dois últimos séculos...). O segundo nos aponta para a revolução digital que continuamente muda a nossa comunicação.
Diante dessa realidade, podemos, na prática, examinar o mercado dos livros. O Editor tinha controle total sobre todas as etapas: do processo de produção a aquele distribuidor. Até mesmo o processo criativo vinha influenciado pela distribuição.
Hoje, não funciona mais assim. A aceleração tecnológica é tão violenta que nos deixa pouquíssimo tempo à disposição. Podemos imaginar que o livro, em uma visão futurista, será mais “vivido” que lido. Mudar-se-á o modo de veicular seus conteúdos, se modificará o sistema de distribuição e de preços, se transformará o modo de criar por parte dos escritores. Uma verdadeira revolução em andamento;
Na Itália, a Mondadori, editora com 28% do mercado e primeira, entre as concorrentes, baixou dos três milhões de copias vendidas, nos anos anteriores, entre os dez best-sellers, a um milhão e seiscentos, do ano passado. Já no setor dos e-books, as vendas em 2010 atingiram treze mil exemplares, enquanto que, no ano passado, pularam para duzentos e setenta mil! 
O que se prevê? Que desaparecerá, antes de mais nada, o “mega-seller”, ou seja, o livro comprado como “tendência” e que acaba não sendo lido (o qual nos é apresentado com as melhores estratégias de marketing, geralmente)  Para depois, lentamente, despencarem as vendas dos livros em papel, com queda que pode atingir até oito por cento ao mês...
O que torna forte, a ação do leitor (e faz declinar aquela do editor) é o livre acesso às informações. Esta procura pessoal provocará descobertas verídicas em torno dos dados: antes, a força do editor vinha demonstrada na condução da venda, que vinha embasada em apelos publicitários e ações promocionais. Com o digital, o leitor assumiu o comando: é ele quem fala à comunidade, que escolhe o que, o quando, por quanto deve comprar uma obra.

Aqueles mais otimistas dirão que é um passo importante, que a esfera do conhecimento humano deve ser determinante para o consolidamento de outra esfera pública democrática e que, juntas, nos farão assistir a um crescimento real de uma nação ou país.
Mas é justamente aí que reside o perigo: estaremos nos encaminhando a um período onde o desenvolvimento passe obrigatoriamente pela valorização do saber, das culturas, onde todos possam guiar mudanças sustentáveis?

Li, nesta semana, um artigo do Corriere della Sera, feito pelo jornalista Pietro Citati, intitulado “Dan Brown, Coelho, Faletti: best-sellers que não devem ser lidos” e que me despertou curiosidade. O autor diz que são os escritores que passam qualidade aos leitores, como uma herança. Poucos anos atrás ainda líamos “impávidos e aventurosos” as dificuldades de conteúdo e de estilo de cada exemplar consistente que nos chegasse às mãos. Divertíamo-nos com enigmas e fantasias, extasiados com alusões, culturas diferentes de nossas paisagens remotas...
Hoje, a leitura se tornou uma espécie de orgia, onde o que conta é a vulgaridade da imaginação, a banalidade da trama, a mediocridade do estilo. E que é bem melhor não ler Dan Brown, Giorgio Faletti ou Paulo Coelho (concordo com ele totalmente!). Os italianos ainda não leram sequer Dickens e Balzac. Também Kafka, Tolstoj e Borges estão completamente esquecidos, complementa o autor.
Teço reflexões sobre minhas leituras, termino mais um trabalho para apresentar ao meu tutor do curso “Pesquisa de Mercado” da FGV, todos os pensamentos se encaixam, quando me deparo com a frase: “sem cultura, não há desenvolvimento.”.

Profunda verdade.

Que seleção saberá fazer o leitor do futuro? Impor à massa, valores decadentes e superficiais? Ou abrir caminhos para a sabedoria e o crescimento global?
A capacidade de imaginar e criar o amanham são urgentes e não há tempo a perder. A hora, de colocar a real função de desenvolvimento da cultura ao centro dos governos, chegou.
Pensando bem, como afirma a crônica do “Il Sole 24 Ore”, maior jornal de economia, a função da cultura deve estar no centro de um inteiro governo. Significa que a estratégia e as consequentes escolhas operativas devem ser condivididas pelos Ministérios da Cultura com aquele do Desenvolvimento, do Bem-Estar, da Instrução e da Pesquisa, do Exterior, do Ambiente e do Turismo, com o Chefe do Governo. 

E pensar na importância da ação pública unindo todos os níveis de educação, do ensino fundamental a universidade, do estudo da arte a historia, das práticas criativas à cultura científica, valores de base que contribuem em formar cidadãos e consumidores dotados de abertura mental e espírito crítico.

Sim, talvez não seja utopia um futuro com melhores leitores...

Graça Montenegro.doc

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

“DEVO MUITO A QUEM NÃO AMO”

Poucas pessoas sabem, mas o início de fevereiro nos privou da graça e ironia da poetisa Wislawa Szymborska, polonesa, que nos abria as portas para as primeiras e mais simples coisas da vida... Vocês imaginam uma poesia sobre um Curriculum Vitae?

Ei-la (na minha tradução do italiano para o português):

ESCREVER UM CURRICULUM

O que é necessário?

É necessário escrever uma pergunta

e à pergunta, anexar o curriculum.

 Prescindindo do quanto se viveu,

um curriculum deve ser breve.

 E serve concisão e seleção dos fatos.

Mudar paisagens, em endereços.

E recordações incertas, em datas fixas.

Entre todos os amores, somente aquele conjugal.

E das crianças, somente aquelas nascidas.

Conta mais quem te conhece, de quem conheces tu.

As viagens? Somente se ao exterior.

O participar a alguma coisa,

mas sem explicar o porquê.

Honorificências sem motivação.

Escreve, como se não estivesses falando

nunca contigo mesmo

e te evitasses.

Passa por cima, cães, gatos e pássaros,

bugigangas do passado, amigos e sonhos.

Melhor o preço, que o valor.

E, o título, que o conteúdo.

Melhor o número do sapato,

que não, onde vai, aquele que imagina quem és.

Acrescenta uma foto com as orelhas descobertas.

É a sua forma que conta,

não aquilo que se intui.

O que é que se intui?

O rumor das máquinas trituradoras de papel.
 

Ela me recorda tanto o nosso Mário Quintana, especialmente naquela atenção dada aos animais...  Um sentimento de admiração, quase de inveja, pelas criaturas que somente vivem o momento. Não como nós, seres impossibilitados, a mergulhar profundamente no instante, apoiados como somos nas recordações do passado e encastrados ante a chegada do futuro.

Ganhou, em 1996, o Nobel de Literatura, a “Senhora de Cracóvia”, como era chamada.  Dizia que, “quando mais seguimos adiante, na vida, mais crescem as perguntas e se ofuscam as respostas”, vendo, ano após ano, multiplicadas as edições dos seus versos.

Em prosa, os cinco volumes de “Leituras Facultativas”, apreciação sui generis sobre livros de temática diversa (jardinagem, economia doméstica, memorialística, correspondência literária), causaram idêntica admiração provocada pela poesia.

Graça e ironia não lhe faltaram ao definir-se em seu epitáfio:

“Aqui jaz, como uma vírgula antiquada, a autora de alguma poesia. A terra lhe dignou um eterno repouso, se bem que a defunta estivesse bem distante dos grupos literários. E mesmo sobre o túmulo, melhor não há que estas poucas rimas taciturnas e contidas: Extrai da tua bolsa, o teu personal, passante, e sobre a sorte de Szymborska, medita um instante.”

Viram só? Como não apreciar-lhe o ceticismo, a sobriedade e a precisão incidindo na linguagem coloquial, mas sempre capaz de abolir, constantemente, o lugar-comum!

Ah, belo escrever com este gosto requintado voltado para o jogo linguístico, com predisposição à ironia, atenção ao ritmo e ao uso (não exagerado) de metàforas! Depois de ler “A Alegria de Escrever”, fico aqui me perguntando sobre uma congênita vocação literária minha: não será melhor dedicar-me à “Alegria de Ler”?

Mas igualmente me sinto plena e contente. E, por tal razão, risonha, egoisticamente feliz mesmo, pelas pessoas que estão no meu percurso “històrico” e também por aquelas que “entraram pela porta e saíram pela janela” da minha vida.  Principalmente, homens. Agradecer à gente que, não fazendo a mesma estrada, me faz observar que as viagens são sempre bonitas e que o espaço deixado, me acumula luzes e energia! E como afirma Wislawa, falando sobre dever muito a quem não se ama: “devo a eles, se vivo em três dimensões, num espaço não lírico e não retórico, com um horizonte verdadeiro, porque é móvel”!

 Graça Montenegro.doc

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dias de intenso frio...

Nestes dias de intenso frio, em Roma, uma vez cancelados alguns compromissos fora do meu escritorio (que permanece, fortunadamente, no primeiro andar de minha casa), dediquei-me à leitura. Comecei por um delicioso pequeno livro, em italiano, da colega Paola Jacobbi, a qual, escrevendo pra VanityFair daqui, tem feito sucesso por onde anda: “Sotto i tre carati non è vero amore”, ou seja, expressão italiana que se usa para avaliar o valor de um relacionamento de acordo com a joia que nos presenteia o ser amado. Em Português: Abaixo de três quilates não é amor verdadeiro!
Pensei que se tratasse somente de uma leitura prazeirosa sobre encantadoras futilidades, esse livro da Paola: quem não aprecia o bom uso de anéis, colares, cintos, broches e tiaras? Não somente isso: eram verdadeiras lições de vida com as histórias de tantos personagens ilustres em torno às joias! Nooossa! Como são diferentes as reações de cada ser humano!
          “Conta que o Duque de Westminster (Hugh Richard Arthur Grosvenor) cortejava Coco Chanel, como     fazia com todas as suas amantes: safiras, diamantes, esmeralda. Mas ela não apreciava o gesto, sentia-se comprada. Então ele, riquíssimo e extravagante, articulou a mania de esconder, em lugares mais improváveis, em suas barcas ou em seus castelos, anéis com pedras preciosas, desafiando senhoras e senhoritas a os encontrarem...”.
         “Um dia, durante um cruzeiro, ele a trai com outra hóspede (evidentemente muito sensível à caça ao tesouro!). Chanel, furiosa, briga com ele. Este, pra se fazer perdoar, dá-lhe uma esmeralda valiosíssima. Coco a extrai do estojo, olha-o intensamente nos olhos e deixa cair o presente reparador nas àguas turvas do porto de Mônaco.”
Você, que me lê, pensará que ela foi idiota em não aceitar o mimo. Pois eu, como Paola, pensamos de modo semelhante: ela era independente e orgulhosa. E, adiciono eu: deve ter saído dali com a “alma lavada”!
Enfim, como ia falando, foram três dias passados entre lareiras e computers! Com alguns acenos aos jornais digitais e à tv (essa, mais raramente) e o livro à cabeceira. Num contexto de preocupações bàsicas do tipo ir ao supermercado, as prateleiras nuas de alimentos já em falta, estradas perigosas pelo tempo adverso... Tudo somado ao negativismo italiano que já assistiu em pouco tempo aos desmandos do Berlusconi, a covardia do Comte. Schettino, ao Governo Monti com suas tantas sérias mudanças... Mas que tipo de futuro nos espera, nesta Europa?
Coletivamente, é facil que a gente se torne pessimista: “Pensa, Graça, ao futuro da nação (Itália ou mesmo Brasil, onde habito quase quatro meses ao ano), pensa na capacidade dos governantes de melhorar a instrução ou mesmo reduzir a criminalidade, pensa...”
Pessoalmente, usando toda a minha lógica, restrinjo tudo aquilo que é macro e entro no meu universo. Cuido de mim: mantenho o peso e certa fisicidade, trabalho algumas horas ao dia, economizo sempre que posso, divirto-me, viajo tanto, compro o que necessito (sem arroubos, nem mesquinharias), estudo e me atualizo sempre. Ademais, sou responsável, amante e generosa, vivo em sintonia alegre com os meus e respeito o próximo, sem grandes preconceitos. Fui (e sou) pai e mãe. Enfrentei dois divórcios e posso afirmar que estar na quarta relação sentimental séria e duradoura é o triunfo da esperança sobre a experiência! Enfim, estou contente e satisfeita com o que sou e com o que tenho, sem, hoje, sentir a necessidade de confrontar-me ou mesmo comparar-me com quem quer que seja.
Muitas vezes, especialmente no passado, a vida se apresentou em mim, na sua forma mais dramática, como se eu vivesse em delírio... Forte e realista, hoje, finalmente, respondo às suas solicitações, com o máximo dos meus recursos, com a consciência de que posso encontrar respostas para perguntas que somente eu poderia responder, sendo eu mesma.
Com Graça, sigo o meu curso.
NR: O episódio sobre a vida de Coco Chanel foi extraído e traduzido do livro:
JACOBBI, Paola. Sotto i tre carati non è vero amore. Marco Vigevani Agenzia Letteraria, Sperling&Kupfer Editores, Milano, 2012.